Publicado por: julius sodenberg | 07/11/2009

Caetano Veloso e a fase anal incompleta

O leitor Roberto Vinhas escreve-me pedindo que explique o comportamento do cantor Caetano Veloso. Esse leitor estava especialmente indignado com as declarações do cantor, chamando o presidente Lula de “analfabeto”, “cafona” e “grosseiro”.

Pesquisei um pouco a vida do cantor para poder responder. Para os mais jovens, que não conhecem bem o artista, ou já o conheceram em sua fase decadente, vale lembrar que ele se notabilizou pelo uso de frases de efeito que, a despeito de agredir pessoas ou grupos, chamavam para si a atenção da mídia, dando-lhe mais visibilidade.  Muitos de seus críticos destacam que não é incomum que o artista solte uma de suas declarações bombásticas antes de lançar um novo trabalho. Mas, pelo que pude pesquisar, não se trata somente de um gesto calculado (ainda que este provavelmente exista).  O comportamento de Caetano V.  tem origens mais complexas, vindas de seu Inconsciente.  Poderia dizer que ele vive o que costumo chamar de “Fase Anal Incompleta”.

Em psicanálise, a chamada fase anal é uma das fases do desenvolvimento infantil. Ocorrendo logo apos a fase oral, caracteriza-se pelo desenvolvimento do senso de ego e de poder, através do aumento da movimentação no ambiente. Ao contrário do que o senso comum pensa, a denominação dessa fase deve-se ao fato de que nesse momento a criança passa a ter progressivo controle dos esfíncteres anal e uretral. É o momento em que o bebê aos poucos abandona as fraldas.

A fase anal traz consigo uma série de mudanças para a vida da criança. O surgimento da capacidade de movimentação autônoma dá-lhe uma maior mobilidade, permitindo-lhe explorar o ambiente e apropriar-se de mais espaços e objetos. É a fase do “é meu!”. A criança procura segurar os objetos e nega-se a separar-se deles. Sente-se dona do mundo e capaz de qualquer coisa.

Outra mudança importante é a consolidação do desenvolvimento da fala. A criança passa a ser capaz de comunicar-se e rapidamente explora o poder da linguaguem. Dezenas de novas palavras e expressões são incorporadas a cada dia. Os pais maravilham-se com as descobertas, mas há um lado perverso: a criança aprende a usar as palavras para mentir, manipular e atrair para si a atenção.  Logo aprende também a usar a fala para atacar os que lhe contrariam.

Nos casos de fase anal incompleta, tal como estudados por Fleissmain, contemporâneo de Freud e um de seus correspondentes, o indivíduo permanece indefinidamente apresentando características da fase anal infantil na vida adulta, tais como:

  • Egolatria: no início da fase anal, normalmente esses pacientes recebem muitos reforços positivos da família, que acha suas frases bonitinhas e mesmo estimula a pronunciá-las; a criança torna-se um adulto convencido de que deve ser sempre o centro das atenções.
  • Verborragia: o paciente normalmente é capaz de falar ininterruptamente por várias horas, sem escolher assunto; não lhe importa se conhece ou não o objeto, emite opiniões certo de que são verdadeiras.
  • Descontrole parcial do esfincter:  tal como a criança, o indivíduo adulto nem sempre consegue controlar o esfincter, o que muitas vezes é chamado popularmente de “esfincter solto”.

Normalmente a fase anal incompleta ocorre em filhos únicos ou irmãos mais velhos, que concentraram as atenções da família nesse período do desenvolvimento infantil.

Existem vários relatos de tratamentos bem-sucedidos na literatura psicanalítica.  Eu mesmo tive alguns pacientes que, depois de terapias relativamente curtas, entre um e dois anos, exibiram melhorias muito significativas.Em alguns casos, é necessária a participação de pessoas que convivem com o paciente. O terapeuta deve convencer familiares e amigos de que devem ignorar os surtos de egolatria e as práticas verborrágicas do paciente pois, ao se iniciar uma discussão com ele, na verdade estamos alimentando sua egolatria, ou seja, estamos dando a atenção que busca doentiamente.É melhor deixá-lo falando sozinho ou sem resposta, por mais que pareça cruel e doloroso fazê-lo.

A despeito da possibilidade de tratamento, tanto a prática clínica quanto a literatura relatam que o sintoma do “esfíncter solto” é o mais difícil de ser tratado, tendendo a permanecer durante toda a vida.

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Responses

  1. Hilário, comovente e sobretudo, esclarecedora a digressão do Dr. (?) Julius sobre os anais caetanianos. Obrigado.

  2. ♫ Traduzindo, doutor: o baianinho álacre é um “bunda-mole”. Estou certo ou a minha descrição do enfermo é sintética demais? Quer-me parecer que, mesmo o sendo, ela se adéqua indubitavelmente aos textos destinados aos fãs do indigitado, notáveis pelo vocabulário paupérrimo e cultura desanimadoramente escassa… ☺☺☺

    • Caro Jimmy,

      “Bunda mole” não é uma boa sinonimia para “esfincter solto”. Observe que bunda mole diz respeito à musculatura da região glútea, insuficientemente rija, justificando a adjetivação “mole”.

      Esfincter solto não tem relação direta com os glúteos, e sim com o esfincter anal. Trata-se de uma outra estrutura muscular, com diferente tipologia, função e formato.

      De modo geral, o esfíncter é uma estrutura, geralmente um músculo de fibras circulares concêntricas dispostas em forma de anel, que controla o grau de amplitude de um determinado orifício do corpo humano. Diferentemente dos gluteos, conjunto de músculos cuja função é a extensão, abdução e rotação externa e interna da coxa.

      Assim, o “esfincter solto” não pode ser confundido com “bunda mole”. O sintoma é bem diferente. Pessoas podem ter musculatura glútea flácida ou rija e ao mesmo tempo o esfincter solto.

      • ♫ Obrigado pelo esclarecimento, doutor. O senhor foi muito bondoso, dando-se ao trabalho de aclarar a confa que o ápodo poderia gerar. Não que eu confunda o fiofó com a busanfa, mas minha generalização era sem dúvida incorreta. Serei doravante mais específico e passarei e me referir ao logorréico em questão como “butico flácido” ou “esteatóico crônico”… ☺☺☺

      • E por isso que foi usado aspas no “bunda mole”. Rsrsrs!

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