Publicado por: julius sodenberg | 18/01/2010

A mídia brasileira é um cardume de serrasalminae?

O prezado leitor Gaio Grimald encaminha uma questão difícil:

Gostaria de propor algo que até agora é misterioso para mim:
– Levando em consideração que a mídia de massa tradicional brasileira age como Bando, reagindo à excitação instintivamente e agindo em ataque e defesa coordenadamente, comparáveis a um cardume de serrasalminae;
Analise por favor, como um grupo antes tão diversificado, fomentador de mentes criativas e humanas, regrediu a ordem natural darwiniana para estes cabeças-de-peixe atuais em vias de extinção.
Outro grupo que aparenta alguns parcos indícios do mesmo mal é o de Exmos do STJ brasileiro..

Segue minha resposta:

Creio que esse processo seja melhor explicado pela psicologia social ou pela sociologia. A análise psicanalítica apenas apresentaria explicações pontuais e limitadas a alguns indivíduos. Assim, prefiro não me arriscar nesses dois campos nos quais não sou especialista.

Mas não posso deixar de comentar sua menção à “regressão  darwiniana” mencionada pelo estimado leitor.  A palavra regressão é perigosa, porque o senso comum a associa à um retrocesso, à volta a uma situação inferior. A teoria da evolução não comporta essa idéia de inferioridade entre os seres. Ela baseia-se na capacidade de adaptação ao ambiente como atributo fundamental para a sobrevivência.  Assim, talvez se possa utilizar a idéia de adaptação e sobrevivência para explicar o comportamento dos jornalistas. Um pequeno exemplo pode nos ajudar:
Tomemos dois  jornalistas hipotéticos como exemplo. Ao Jornalista A repugna-lhe fazer um jornalismo medíocre, mal-intencionado e subserviente. Incomoda-lhe profundamente funcionar como boneco de ventríloquo de seus patrões e interesses econômicos associados. Deprime-lhe ter que fazer auto-censura para não ser demitido por um telefonema do governador de S. Paulo a seu patrão. O Jornalista Z (ou M, ou MP, ou RN, ou ML, ou AJ, ou WW, ou AG, ou RA, ou DM, ou LH, ou LCS, ou EC, ou outra combinação de letrinhas que se encontre), no entanto, não sente os mesmos engulhos ao receber ordens de manipular informações e opiniões. Chega mesmo a sentir-se bem com isto. Interessado em subir mais alto nas oportunidades da carreira, agarra qualquer possibilidade, até a de ser biógrafo laudatório do patrão. Desenvolvendo sua subserviência, chega a antecipar-se às vontades do patrão e seus parceiros econômico-políticos e ser mais realista que o rei.
Coloquemos esses dois tipos de jornalista em um contexto em que as empresas jornalísticas tornam-se (a) cada vez mais venais; (b) cada vez mais preocupadas em defender os interesses econômicos dos grupos a que pertencem; (c) cada vez mais preocupadas em agir como um partido político reacinário; (d) as três hipóteses anteriores combinadas. Veremos que os Jornalistas do tipo A terão menos oportunidades de sobreviver nesse ambiente. Provavelmente muitos migrarão para outros espaços, menos contaminados, como a internet. Entretanto, o outro tipo, o tipo Z, será capaz de sobreviver e aqueles que apresentarem mais fortemente as características que atendam aos interesses dos donos da mídia tenderão a ter mais destaque em suas carreiras, e mais espaço nos meios de comunicação. Com o tempo, teremos a virtual extinção do tipo A nas redações ou, pelo menos, nas posições de destaque do jornalismo vinculado aos grandes interesses político-econômicos.

Logicamente, o enquadramento dos indivíduos nas categorias acima apresentadas depende de diversos fatores, certamente muitos deles podendo ser explicados em bases psicanalíticas (veja-se, por exemplo, o triste  caso de Boris C, aqui já discutido). Mas, repito, do ponto de vista psicanalítico, cada caso precisa ser tratado individualmente.

Quanto ao STJ, talvez seja suficiente clicar aqui para entender.

Anúncios
Publicado por: julius sodenberg | 05/01/2010

Boris C.: os Garis como Bodes Expiatórios das Pulsões Reprimidas

O leitor Luis Santos pediu que comentasse as frases preconceituosas de Boris C. sobre os garis, pronunciadas na TV Bandeirantes no dia 31/12/2009 (clique aqui para assistir). Fiz uma longa pesquisa, que envolveu um retrospecto de sua carreira, a leitura de reportagens antigas e até entrevistas com motoristas de táxi de SP e Brasília.

O caso de Boris C. tem como chave de compreensão o preconceito e a agressividade.  Pesquisando a vida desse personagem observa-se que esses dois comportamentos já se manifestavam em sua juventude, seguramente como reflexos de processos anteriores que construíram uma mente fragilizada e sujeita à sublimação constante de seus desejos. Veja-se a reportagem de 1968 revela sua  filiação a organizações criminosas na juventude (1), em um tipo de gangsterismo pseudo-politizado e com forte componente de tentativa de afirmação da masculinidade. Para mim, está evidente que o recurso à violência é uma forma de construir uma imagem que oculte os verdadeiros desejos mantidos prisioneiros pelo superego.

Para entender melhor, é preciso pensar nas raízes do preconceito e da agressividade.  Vamos entender como cada um desses se manifesta no caso em questão.

O preconceito e  a resposta à frustração

A psicanálise não tem uma explicação única para o preconceito. É preciso saber que tipo de preconceito é apresentado pela pessoa analisada, para daí identificar os processos que levaram à construção do preconceito.

O preconceito pode surgir como imitação do comportamento de familiares, especialmente na tentativa de imitar a figura paterna para aproximar-se da mãe. Também  pode surgir como resultado de processos mais complexos, normalmente baseados em alguma experiência de frustração ou sofrimento extremo. No caso em estudo, não foi possível obter informações sobre a forma como seus pais e outros familiares se referiam aos garis (ou “lixeiros” como se dizia antigamente e ainda se usa hoje de maneira preconceituosa e depreciativa). Pode ser que o menino Boris, em sua infância nos anos 1940-1950, ouvisse referências negativas aos profissionais da limpeza pública. Mas isso, aconteceu com milhões de outras pessoas, e sozinho não é um fato que justifique o tipo de comentário que gerou a recente execração pública do indivíduo aqui estudado. Assim, é recomendável procurar outros processos que, pelo menos, complementem a explicação.

O preconceito pode se originar do medo. É comum, por exemplo, que o preconceito contra imigrantes acirre-se em momentos de crise econômica, quando as pessoas têm medo de perder seus empregos. Medos atávicos são retomados, muitas vezes recorrendo a estereótipos que correspondem a figuras arquetípicas. Talvez o medo de Boris C.  surja ao compreender que sua decadência como jornalista é inexorável, e que simboliza, de certa forma, a decadência de um tipo de jornalismo e de sociedade e dominação a que ele tem servido por décadas. Em reação,  Boris C. mira aqueles que para ele representam melhor seu grande e odiado inimigo, o presidente Lula: os trabalhadores manuais menos qualificados.

Em um belo texto que se refere coincidentemente ao preconceito contra os ancestrais de Boris C., os judeus, Mauricio Waldman mostra como o preconceito está ligado às pulsões e aos sentimentos reprimidos (2):

Neste âmago, convivem todos os sentimentos reprimidos, formando uma reserva pulsante do irracional (…) tais pulsões se atiram decididamente na tarefa de conspurcar, violentar e profanar, macular o belo, o gentil, o virtuoso, o piedoso e o maravilhoso. Em especial, elas encontram o seu alvo nas formas que foram eliminadas do espaço, desqualificadas pelo tempo, atiradas para fora da História e da Geografia.
 

Se formos olhar para os “lixeiros” de Boris C., eles são exatamente aqueles que estão fora da História, ignorados pela cidade enquanto trabalhadores invisibilizados pelo preconceito; e também expulsos da Geografia, moradores das áreas periféricas, dos cortiços e das favelas, expulsos da cidade da elite Esse medo não pode ser buscado apenas em sentimentos objetivos. Não sem motivo, Waldman nos fala sobre a reserva pulsante do irracional. E o que está instalado nesse irracional? Que pulsões serão essas? A psicanálise nos ensina que “existem essencialmente duas classes diferentes de pulsões: as pulsões sexuais, percebidos no mais amplo sentido – (Eros) e pulsões agressivas, cuja finalidade é a destruição” (3).  A Pulsão de Morte, central entre as pulsões agressivas, muitas vezes tem sua gênese ligada às pulsões sexuais.  Assim,  devemos buscar as origens das pulsões na repressão sexual.

Lendo-se atentamente a reportagem sobre ele e seus amigos de juventude, acima citada, é fácil identificar, apesar da reserva com a qual o repórter trata o tema, que se trata de um ambiente de extrema repressão de pulsões sexuais. O que é a choperia onde se reuniam, senão o espaço de sublimação das pulsões recalcadas por meio da construção de uma camaradagem de rapazes que tentam provar sua masculinidade uns aos outros?  E a presença da violência como código e valor básico de conduta do grupo de criminosos com o qual Boris C. convivia, segundo o repórter? Novamente, é preciso recorrer às pulsões reprimidas para entender como aqueles rapazes associam-se, na verdade, não para caçar comunistas, mas para caçar os fantasmas das fantasias sexuais que recalcavam dentro de si.

A agressividade como expressão da negação do eu

E, assim, identificando a violência como peça central no mecanismo de recalque de fantasias associadas a pulsões de ordem sexual, chegamos à agressividade.

Freud aborda a agressividade já ao tratar das experiências analíticas de Dora (1905)  e de Hans (1909).  A partir do estudo desses casos, Freud associou agressividade ao sintoma, responsabilizando-a pela sua produção e reprodução (3). A agressividade muitas vezes é manifestação e válvula de escape do medo, da frustração ou do recalque.

Ao assumir a agressividade como modus operandi da sublimação, o indivíduo muitas vezes toma o caminho da construção do fetiche. Busca, assim, associar a prática da violência com objetos que, de alguma maneira, ofereçam-lhe a segurança que seu eu fragilizado não é capaz de oferecer a si próprio. Não é sem motivo, portanto, que a reportagem de sua juventude menciona que Boris C. gostava de andar armado.  Se hoje não tem mais esse hábito, muniu-se de outra arma, o microfone, um outro objeto fálico que evoca o mesmo poder masculino que uma pistola.

Ao desviar a garantia de sua segurança emocional para um objeto que evoque esse poder, o indivíduo normalmente projeta para o exterior um eu que não sente como o seu, mas que vê-se obrigado a projetar.  Ao agarrar-se à agressividade baseada em um instrumento e postura arquetipicamente masculinizante, pode fantasiar que é capaz de esconder dos outros o Eu doloroso e frágil com o qual  convive, mas não consegue aceitar.

Nem sempre é possível, no entanto, manter isso. Não é sem motivo que seus colegas do tempo de militância na organização criminosa CCC – Comando de Caça aos Comunistas diziam que ele era “mole” com os comunistas. Esse tipo de desvio comportamental tem essa característica: por trás dessa agressividade normalmente esconde-se um grande covarde, que apenas consegue atacar os fracos, mas costuma abaixar-se para os mais fortes e poderosos.

Referências

(1) CCC ou o Comando do Terror. Reportagem de Pedro Medeiros. Revista O Cruzeiro, 9 de novembro de 1968.

(2) WALDMAN, M. Arquétipos, Fantasmas e Espelhos. GEOUSP – Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 23, pp. 44 – 64, 2008.

(3) PAULON, W.  Agressividade e psicanálise (2009). Disponível em: http://www.webartigos.com/articles/26980/1/agressividade-e-psicanlise/pagina1.html 

Publicado por: julius sodenberg | 22/12/2009

O Caso de C.B.: delírio ou revolta contra o Pai dominador?

Diversos leitores escreveram pedindo que analisasse o caso do articulista de um conhecido jornal, aqui referido pelas iniciais C. B. que, segundo pude me informar, há algumas semanas publicou texto no referido jornal (que, confesso, deixei de ler há muitos anos) em que mencionava uma confissão jocosa do presidente da república feita diretamente a ele, de que teria tentado abusar sexualmente de um rapaz, quando preso político.

Não conheço o sr. C.B. pessoalmente, mas busquei informações em múltiplas fontes e nos seus próprios textos. Estes textos são um celeiro de atos falhos, no sentido psicanalítico do termo. Sua leitura ajudou muito na análise apresentada a seguir.

Várias hipóteses foram aventadas pelos leitores. Vamos, primeiramente, explorá-las:

a) Síndrome de Asperger

A S. de Asperger é relacionada ao autismo, porém diferindo em vários sintomas. Segundo o psicólogo português Paulo Teixeira (não confundir com seu homônimo deputado federal por S. Paulo), as pessoas portadoras da S. de Asperger:

Apesar de poderem ter um extremo comando da linguagem e vocabulário elaborado, estão incapacitadas de o usar em contexto social e geralmente têm um tom monocórdico, com alguma nuance e inflexão na voz.

Esses pacientes são capazes de se comunicar, e com isso parece que podem vir a ter vida social aparentemente normal, até que o contexto entra em cena. Incapazes de compreender o contexto em que um processo comunicacional ocorre, rapidamente seus diálogos tendem a caminhos divergentes e o interlocutor tem a impressão que o paciente não seguiu o diálogo com ele, mas é como se dialogasse consigo mesmo. Normalmente, esses “diálogos de surdos” acabam por tomar o caminho do monólogo, com o paciente fixando-se obstinadamente em algum ponto da conversa e “falando em círculos solitários”, nos quais o significante e o significado se esboroam no diálogo e ganham sentido apenas para o paciente, como já definia Quinet(1).

No caso em questão, seguramente o uso elaborado da linguagem  e o diálogo descontextualizado encontram-se presentes. Entretanto, outros sintomas que poderiam ser referidos à Síndrome de Asperger não foram constatados nas fontes que foi possível consultar.

O referido C.B. parece levar uma vida social relativamente normal, que torna difícil a catalogação imediata da síndrome entre seus comportamentos.  Parece-me mais provável um problema de exercício intelectual, na ordem do exercício da capacidade analítica ou de compreensão de processos políticos do que, propriamente, um caso de Síndrome de Asperger.

b) Transtorno de Personalidade do Tipo Esquizóide

O leitor Celso R., em mensagem por e-mail, pergunta se o caso do articulista C.B. pode ser enquadrado como Transtorno de Personalidade do  Tipo Esquizóide.

A presença de delírio é fundamental para o diagnóstico do TPTE, cujo surgimento está relacionado a uma ruptura do desenvolvimento do pensamento lógico-formal. Ou seja, uma atitude delirante frente à realidade encontra no paciente justificativas absolutamente normais. O paciente em delírio jamais o admite: o delírio substitui a realidade.

Alucinações, que podem ser encontradas desde idades mais precoces, são comuns e freqüentes e podem ser detectadas mesmo antes do aparecimento da comunicação verbal.

O Transtorno de Personalidade do Tipo Esquizóide  leva o paciente a ter  sensibilidade aumentada, com crescimento da ideação paranóide. Também se acompanha da presença de fantasias, às vêzes muito elaboradas (sintoma que ganha importância com a idade).

Alguns dos leitores que escreveram acusavam o articulista C.B. de “estar delirando” em seu texto. Por mais estranho que seja o artigo e mais inusitados tanto o conteúdo da acusação como a forma como o autor teria tido contato com ela, e por mais inverossímel que pareça toda a história, não é possível rotular o ocorrido como “delírio”.

Entretanto, a repetição contínua desse tipo de comportamento pode implicar a necessidade de monitoramento específico de sintomáticas antecipadoras do diagnóstico de TPTE.

c) Mal de Alzheimer

O mal de Alzheimer traz, entre suas características, a perda da memória recente e a emergência de recordações antigas. É como o cérebro começasse a revirar suas gavetas e viessem lembranças há muito esquecidas, ao custo de se esquecer o que se viu e ouviu há pouco tempo.

Na  idade de C.B., na casa dos 50, o aparecimento de sintomas significantes de Mal de Alzheimer não é comum. Entretanto, a literatura aponta casos de Alzheimer precoce. Recentemente, foi relatado um caso paranaense  em que o indivíduo, grande executivo de uma empresa pública de comunicação do estado, um belo dia, ao voltar do trabalho, dirigiu até o Rio de Janeiro, onde morava antes de ir trabalhar na empresa paranaense, tendo se esquecido de que morava e trabalhava agora em Curitiba.

No entanto, parece-me que  esta não seja  a condição de C.B. Para diagnosticar uma eventual presença do Mal de Alzheimer em regime de precocidade, seria necessário ocorrer um número maior de eventos, o que não foi possível identificar em nenhuma das fontes consultadas.

d) Recalque

Outro leitor pergunta “com relação ao cidadão C. B., ele poderia sofrer de recalque por não ser o garotinho ao qual o presidente se referiu?

Freud fala do recalque (Verdrängung) usando uma expressão muito feliz:

“O ego não pode escapar a si próprio” (Recalque, vol. XIV, 1915, p.169)

O recalque surge quando uma determinada força de afastamento do objeto desejado (ou da pulsão que atrai o indivíduo a ele) logra dominar o ego e apoderar-se da mesma pulsão. Como diz Freud:

“Torna-se condição para o recalque que a força motora do desprazer adquira mais vigor do que o prazer obtido da satisfação” (p.170)

Uma vez apoderando-se da força da pulsão, o recalque a redireciona para sentidos opostos ou diversos. E  utiliza essa mesma força para impedir que o consciente identifique a origem do recalque.

Nesse sentido, o recalque afasta do consciente a ligação imediata com o objeto original da pulsão. O recalque é, mesmo, uma manobra para ocultar a pulsão e, portanto, precisa dessassociá-la de seus elementos imediatos. A hipótese  apontada pelo leitor torna-se, portanto, impossível, por excessivamente direta. O recalque sempre requer maiores mediações. Fiquei, mesmo, suspeitando que o leitor apenas quis fazer uma provocação ao articulista C.B.

Minha conclusão: tentando trabalhar as hipóteses e revisitando um mito hebreu

Como pudemos ver acima, nenhuma das hipóteses levantadas pelos leitores se confirma, de pronto. Entretanto, alguns elementos do comportamento de C.B. podem ser evidências antecipatórias de sintomáticas em constituição. Somente o acompanhamento permanente por profissional especializado poderia confirmá-las, no futuro.

De qualquer maneira, pode-se verificar que a negativa da figura paterna encontra-se presente. Nitidamente,a figura de Lula é, para C.B., uma figura paterna.  Seu afastamento do partido do presidente e todo o desenvolvimento posterior de sua atividade política e de seus escritos podem ser interpretados como essa negação do Pai, um pai tão sobrenaturalmente forte que não pode ser vencido.

Talvez seja útil valer-se de um mito bíblico para melhor entender a situação. Trata-se do caso de Noé e seu filho Cam.

Conta a Bíblia que, numa noite, embriagado, Noé teve sua nudez exibida por seu filho Cam. Essa atitude de Cam é absolutamente edipiana: ele tenta matar o pai (no caso, simbolicamente, ao destruir sua respeitabilidade aos olhos da tribo e aos olhos de Deus) para tomar o seu lugar.

Ao despertar da embriaguez, Noé apercebeu-se do ocorrido e amaldiçoou Cam e seu filho Canaã (que daria origem aos cananeus, inimigos dos hebreus). Estes, com a maldição, viriam a ser escravos dos demais filhos de Noé: Sem (que geraria os povos semitas, entre os quais os hebreus) e Jafé (de quem os gregos descenderiam).

O que faz Cam, depois da maldição? Aceita-a, impotente, mesmo que considere que a culpa é do pai, que cometeu o erro de ficar em estado de nudez e que ele apenas a mostrara. Mas seus descendentes, depois, farão muitas guerras contra os hebreus, sendo ao final derrotados e desaparecendo como povo.

O mito presta-se a muitas interpretações, inclusive incestuosas e homossexuais, como faz Saramago em seu livro Caim. Mas o mais importante que nos diz é que a revolta contra o pai injusto e opressor às vezes demora para aparecer, mas aparece (no caso do mito, gerações adiante). Essa revolta tem sempre caráter edipiano. Esse que se revolta contra a figura paterna a está desafiando. Quer tomar o seu lugar e usa todas as armas para isso. Talvez aí, de certa maneira, haja espaço para se pensar não em recalque, mas em fantasia: impotente na luta contra o Pai dominador, incapaz de tomar seu lugar e de conquistar para si a exclusividade do amor da mãe, o indivíduo fantasia situações que poderiam devolver-lhe a esperança de destruir o Pai. Muitas vezes sabe tratar-se de uma fantasia, mas não mais consegue desvencilhar-se dela.

Talvez seja isso que ocorre com o articulista C.B. Não tendo nunca resolvido suas relações com a figura paterna projetada em Lula, tenta destruí-la, revolta-se contra ela tentando exibir a nudez dessa figura, ou seja, mostrando-o como menos merecedor da reverência. Sua saída do PT é, de certa maneira, a repetição  da maldição de Noé sobre Cam. Seus ataques posteriores a Lula talvez sejam as suas guerras cananéias, travadas quando a maldição já estava posta e destinadas à inevitável derrota dos cananeus.

(1) QUINET, A. Um olhar a mais: ver e ser visto na psicanálise. Rio de  Janeiro, Ed. Jorge Zahar, 2002
Publicado por: julius sodenberg | 15/12/2009

Por que carregar dinheiro em roupas íntimas?

Recebi do leitor Jackson Filgueiras a seguinte consulta:

Dr. Julius;
Eu gostaria de solicitar do Senhor uma análise sobre um fenômeno um pouco mais escatológico, talvez: os dólares na(s) cueca(s).
O fenômeno de que foi protagonista o assessor parlamentar do PT foi o mesmo fenômeno protagonizado pelo quadro do Dem do Distrito Federal?
(…)
O que move uma pessoa a tais atitudes?
E seria a mesma loucura (permita descrever como loucura) praticada pelas “mulas” que engolem cápsulas de cocaína?

Prezado Jackson,

Sua pergunta é complexa e requer sérias reflexões. No espaço deste post, posso dizer-lhe que os dois comportamentos, apesar de terem a cueca e o dinheiro em comum, são distintos.

Primeiramente, quanto à comparação com as “mulas” do tráfico de drogas, creio que não procede. Ao que consta, ninguém até agora engoliu dinheiro, ainda que não pode descartar a hipótese de que, caso o faça, será um tipo de antropofagia arquetípica: ao engolir o dinheiro, o indivíduo incorpora para si a força dos meios de pagamento, fator central de sucesso em nossa sociedade. Diferentemente das “mulas”, que apenas estão usando de um artifício para transportar sua mercadoria.

No caso do dinheiro na cueca flagrado no aeroporto, a origem do dinheiro não foi esclarecida, pode ser que  houvesse algum financiamento não declarado para campanhas, mas pode ser alguma outra coisa.  Portanto, não é possível identificar claramente uma interpretação psicanalítica das origens de tal comportamento. Ainda assim, a dúvida persiste: legal ou não, por que carregar o dinheiro na cueca?
Sua hipótese de medo parece interessante. Talvez, para um cidadão que vá pouco até uma grande metrópole como São Paulo, dá medo ir a essa cidade tão cheia de perigos, assaltos, sequestros, ataques a delegacias, fugas de presos, detentos comandando crimes de dentro das prisões, crescimento do número de homicídios, corrupção e incompetência policial. Uma cidade com segurança pública precária, enfim, desperta medos ancestrais. E medos há muitos. Para alguns, talvez pareça um medo exagerado, mas um olhar realista dirá: São Paulo é uma cidade absolutamente insegura e não há grandes movimentos por parte das autoridades para mudar esse quadro (exceto a manipulação das estatísticas).

No caso de Brasília, a origem é sabida e é claramente devida a práticas de corrupção sistemática, com o chamado Mensalão Demotucano do DF. Podemos dizer que essa prática sistemática de corrupção evidencia  um comportamento obsessivo que pode estar associado a um TOC – Transtorno Obsessivo Compulsivo fundamentado na busca de afirmação da superioridade em relação ao Pai provedor. É como se Arruda e seus amigos dissessem: sou melhor que meu pai para prover recursos, porque trago muito dinheiro para casa. Estão matando o Pai para terem a Mãe somente para si. De certa maneira, a cueca é sua cartucheira onde colocam a munição: cada cédula recebida se tornará um  tiro desferido no Pai Arquetípico. E não é sem razão que a cartucheira a ser usada para matar esse Pai usurpador está diretamente associada à genitália. Trata-se, também, de mostrar que esse dinheiro faz do seu portador um homem mais másculo que o Pai.

Com relação à colocação do dinheiro na cueca, o caso brasiliense dispensa psicanálise e apela para o bom senso: quando se carrega grandes quantias em lugares tão infestados de ladrões como no governo do DF, todo cuidado é pouco.

Publicado por: julius sodenberg | 15/11/2009

A Presunção Ególatra de um Sociólogo

Hoje respondo pergunta da leitora Agda Diniz:

Dr Julius, O caso do Prìncipe dos Sociologos de Higienópolis também parece ser de “fase anal incompleta”? O que o Sr. acha?

A Fase Anal Incompleta pode manifestar-se de muitas maneiras. No estudo do caso do cantor Caetano Veloso, apontei três sintomas principais: egolatria, verborragia e esfincer solto.  Estes são os principais sintomas, mas não são relacionados unicamente à Fase Anal Incompleta. Podem surgir em outros contextos.

No caso do citado Sociólogo, não vejo elementos que caracterizem a Fase Anal Incompleta. Não existe o problema do esfincter solto, tampouco verborragia.  Observe a leitora que não se pode confundir verborragia com falar asneiras. Entre intelectuais que já tiveram um certo prestígio no meio acadêmico mas depois tiveram suas obras esquecidas, é comum a ocorrência de altas taxas de incidência de fala desconexa, sem que se caracterize a verborragia. Alguém pode apresentar fala desconexa e ser lacônico. Na verdade, esse sociólogo não é verborrágico, visto que a verborragia implica perder o controle da decisão de falar: o paciente fala mesmo que saiba que não deve, ou seja, há um déficit de controle da expressão verbal. E o sociólogo em questão costuma escolher bem os momentos em que deve se pronunciar.

No entanto, encontrei outros aspectos que merecem reflexão. A egolatria  é um comportamento evidente, e irei deter-me nela, neste post, mas prometo voltar ao caso desse sociólogo no futuro.

Ainda que a egolatria esteja presente nas manifestações da Fase Anal Incompleta, ocorre também em outros processos, como Freud já apontava. A egolatria está diretamente relacionada ao processo de construção da auto-estima na infância. Segundo Milagros Oliva, “a linha que separa a auto-estima da egolatria se origina nas primeiras relações que a criança tem com seu entorno”.

A construção da auto-estima está diretamente relacionada à relação da criança com seus pais.  Ao longo do processo edipiano, o menino divide-se entre a necessidade de aprovação do pai e a vontade de matá-lo para ficar com a mãe, objeto de seu desejo, só para si.  Pode-se olhar esta tensão como uma contradição, mas preferimos pensá-la como uma oportunidade de construção de um equilíbrio, até que se resolva a angústia edipiana. No entanto, nem sempre esse equilíbrio efetivamente se instaura.  Muitas vezes o menino resolve a tensão pela via da compreensão de que é absolutamente incapaz de ter a mãe para si, e dedica-se à reverência ao pai e a busca de formas de agradá-lo.   Assume comportamentos desejados pelos pais que, em troca, estimulam-no a prosseguir com tal postura, em um círculo de reforço mútuo.   A criança, vendo-se aprovada, desenvolve uma consciência de si na qual passa a sentir que está próxima da perfeição: ou seja, uma hipertrofia da auto-estima, que está no centro da egolatria.

Após a infância, se no âmbito do Ego  manifesta-se essa egolatria, seu Inconsciente lembra-lhe que, na verdade, é um derrotado que teve que render-se ao pai e depende de sua aprovação.  Tornou-se um derrotado que parece triunfante, mas seu triunfo vem da aprovação do pai, verdadeiro vencedor. E essa aprovação só existe porque foi derrotado. O Inconsciente avisa-lhe que, na verdade, sua elevada auto-estima é demasiado frágil.

Como ele resolve esse conflito? A contradição, uma vez insinuada pelo Inconsciente, origina uma reação de  reafirmação da sua superioridade, desenvolvida na relação com os pais, ainda que seja ilusória.  Aí surge um comportamento novo: a presunção.

Corkille faz uma importante distinção: “Auto-estima é o que cada pessoa sente por si mesma. Seu julgamento geral sobre si mesma, na medida em que sua própria pessoa lhe agrada. Auto-estima elevada não consiste em uma presunção ruidosa. É, sobretudo, um respeito silencioso por si mesmo, a sensação do próprio valor. A presunção, em troca, não passa de uma capa delgada que cobre a falta de auto-estima. Aquele cuja auto-estima é elevada não perde tempo em impressionar os demais: sabe que tem valor” (1).

Damos o nome de Presunção Ególatra a esse tipo de presunção combinada com egolatria. Trata-se de um comportamento engendrado pela contradição entre uma egolatria fortemente inscrustrada no Ego e uma compreensão de si como um perdedor que não pode declarar-se como tal.

________

(1) Corkille, D. El niño feliz. Ed. Gedisa

Publicado por: julius sodenberg | 07/11/2009

Caetano Veloso e a fase anal incompleta

O leitor Roberto Vinhas escreve-me pedindo que explique o comportamento do cantor Caetano Veloso. Esse leitor estava especialmente indignado com as declarações do cantor, chamando o presidente Lula de “analfabeto”, “cafona” e “grosseiro”.

Pesquisei um pouco a vida do cantor para poder responder. Para os mais jovens, que não conhecem bem o artista, ou já o conheceram em sua fase decadente, vale lembrar que ele se notabilizou pelo uso de frases de efeito que, a despeito de agredir pessoas ou grupos, chamavam para si a atenção da mídia, dando-lhe mais visibilidade.  Muitos de seus críticos destacam que não é incomum que o artista solte uma de suas declarações bombásticas antes de lançar um novo trabalho. Mas, pelo que pude pesquisar, não se trata somente de um gesto calculado (ainda que este provavelmente exista).  O comportamento de Caetano V.  tem origens mais complexas, vindas de seu Inconsciente.  Poderia dizer que ele vive o que costumo chamar de “Fase Anal Incompleta”.

Em psicanálise, a chamada fase anal é uma das fases do desenvolvimento infantil. Ocorrendo logo apos a fase oral, caracteriza-se pelo desenvolvimento do senso de ego e de poder, através do aumento da movimentação no ambiente. Ao contrário do que o senso comum pensa, a denominação dessa fase deve-se ao fato de que nesse momento a criança passa a ter progressivo controle dos esfíncteres anal e uretral. É o momento em que o bebê aos poucos abandona as fraldas.

A fase anal traz consigo uma série de mudanças para a vida da criança. O surgimento da capacidade de movimentação autônoma dá-lhe uma maior mobilidade, permitindo-lhe explorar o ambiente e apropriar-se de mais espaços e objetos. É a fase do “é meu!”. A criança procura segurar os objetos e nega-se a separar-se deles. Sente-se dona do mundo e capaz de qualquer coisa.

Outra mudança importante é a consolidação do desenvolvimento da fala. A criança passa a ser capaz de comunicar-se e rapidamente explora o poder da linguaguem. Dezenas de novas palavras e expressões são incorporadas a cada dia. Os pais maravilham-se com as descobertas, mas há um lado perverso: a criança aprende a usar as palavras para mentir, manipular e atrair para si a atenção.  Logo aprende também a usar a fala para atacar os que lhe contrariam.

Nos casos de fase anal incompleta, tal como estudados por Fleissmain, contemporâneo de Freud e um de seus correspondentes, o indivíduo permanece indefinidamente apresentando características da fase anal infantil na vida adulta, tais como:

  • Egolatria: no início da fase anal, normalmente esses pacientes recebem muitos reforços positivos da família, que acha suas frases bonitinhas e mesmo estimula a pronunciá-las; a criança torna-se um adulto convencido de que deve ser sempre o centro das atenções.
  • Verborragia: o paciente normalmente é capaz de falar ininterruptamente por várias horas, sem escolher assunto; não lhe importa se conhece ou não o objeto, emite opiniões certo de que são verdadeiras.
  • Descontrole parcial do esfincter:  tal como a criança, o indivíduo adulto nem sempre consegue controlar o esfincter, o que muitas vezes é chamado popularmente de “esfincter solto”.

Normalmente a fase anal incompleta ocorre em filhos únicos ou irmãos mais velhos, que concentraram as atenções da família nesse período do desenvolvimento infantil.

Existem vários relatos de tratamentos bem-sucedidos na literatura psicanalítica.  Eu mesmo tive alguns pacientes que, depois de terapias relativamente curtas, entre um e dois anos, exibiram melhorias muito significativas.Em alguns casos, é necessária a participação de pessoas que convivem com o paciente. O terapeuta deve convencer familiares e amigos de que devem ignorar os surtos de egolatria e as práticas verborrágicas do paciente pois, ao se iniciar uma discussão com ele, na verdade estamos alimentando sua egolatria, ou seja, estamos dando a atenção que busca doentiamente.É melhor deixá-lo falando sozinho ou sem resposta, por mais que pareça cruel e doloroso fazê-lo.

A despeito da possibilidade de tratamento, tanto a prática clínica quanto a literatura relatam que o sintoma do “esfíncter solto” é o mais difícil de ser tratado, tendendo a permanecer durante toda a vida.

Publicado por: julius sodenberg | 07/11/2009

A fantasia de um édipo sublimado

Volto aqui ao caso do menino chamado Zezinho, do bairro da Móoca, em São Paulo. Hoje, já adulto, ocupa um cargo político importante. No post anterior, falei dos sintomas  de paranóia relacional apresentados por ele desde a infância e que tornaram mais complexos em sua vida adulta.

Achei seu caso muito emblemático e pesquisei mais a respeito. Neste novo estudo, pude observar que ele apresenta um distúrbio o qual denomino “fantasia do édipo sublimado” ou “sublimação edipiana fantasiosa”. Também nos referimos a esse distúrbio pela sigla EFS, do inglês “Edipian Fantasious Sublimation”.

O portador de EFS apresenta sintomas de paranóia relacional e megalomania, mas a característica mais marcante é a recusa a aceitar contrariedades e a fixação em objetivos em geral irrealizáveis.

Essa fixação normalmente aparece como uma  obstinação em conquistar  espaços de poder. Ao buscar essas conquistas, o paciente procura sublimar o trauma edipiano básico, mostrando-se mais forte que o pai e oferecendo, simbolicamente, as conquistas à mãe.  Na fantasia do paciente, a conquista do poder significa a posse definitiva da mãe, e por isso deve ser realizada a qualquer custo: atingir o objetivo desejado é também proteger a mãe contra o pai expresso em todos os outros homens.

Ao contrário do que seria de se esperar pelo senso comum, os pacientes não apresentam atração por mulheres mais velhas. Sem embargo, a partir de um certo momento de sua maturidade apresentam interesse por mulheres maduras, mas bem mais jovens. Trata-se, na verdade, de buscar mulheres com a mesma idade que suas mães tinham no início de sua puberdade. A partir de certo ponto, essa busca, ancorada na fantasia do reencontro com a mãe arquetípica, pode ser a fonte de conflitos familiares.

A gênese desse distúrbio pode ser encontrada na trajetória do indivíduo até o início da pré-adolescência. Normalmente, quando a puberdade chega, o EFS já está totalmente instalado.  Constrói-se a partir da exposição desbalanceada ao convívio feminino, em detrimento do convívio com homens adultos da família, especialmente o pai.

Os homens nos quais o EFS manifesta-se normalmente tiveram não somente a mãe como referência mais forte na infância, mas outras mulheres o cercavam, como tias, avós, primas, e tinham acesso a pouca ou nenhuma companhia masculina familiar. Filhos únicos são mais propensos a desenvolver a fantasia do édipo sublimado.

Meninos cujo pai passa muito tempo fora de casa são especialmente propensos a desenvolver o EFS.  O Dr. Juan Stelmann(1), em estudo sobre o distúrbio, apontou o aumento da incidência em casos em que esses pais são mais autoritários e determinam comportamentos estritos para os filhos. No caso em questão,  seu pai saía muito cedo e chegava tarde do trabalho, além de lhe negar o convívio em um ambiente masculino, impedindo-o de acompanhá-lo ao trabalho para que se concentrasse nos estudos.

O EFS é um distúrbio que se incrustra no Inconsciente do indivíduo e seu tratamento exige um longo trabalho de terapia. No caso em questão, seguramente seriam necessários muitos anos de terapia para, se não resolvê-lo, ao menos reduzir os sintomas, que tendem a se agravar sem tratamento.

(1) EFS: La fantasia del Édipo Sublimado y la genesis de la paranoia. Revista Argentina de Psicanalisis, vol. 4, n. 2, 1969.

Publicado por: julius sodenberg | 07/11/2009

O caso de paranóia relacional do menino Zezinho

Recebi mensagem pedindo que analisasse o caso do menino Zezinho, um garoto da Móoca que vinha desenvolvendo, desde a infância, vários comportamentos bastante importantes.  Hoje já adulto, transformado em famoso político e ocupando um alto cargo público, vários dos sintomas que ele apresentava na infância e que eram tomados como esquisitices hoje desenvolveram-se em profundidade e tomaram conta de seu ego expansivo.

Como médico psiquiatra, posso garantir que o menino Zezinho tem um quadro gravíssimo de paranóia relacional. Esse menino tem várias características apresentadas por Freud em sua correspondência com o dr. Fleshsig, sobre o caso do paciente Schreber: altíssima excitação que o leva à permanente atividade e insatisfação, megalomania, transferência das causas de suas falhas e defeitos a outras pessoas, objetos ou situações e desprezo pela opinião alheia.

Muito se discute sobre as origens desses comportamentos. Teriam base neurológica ou dever-se-iam à situações vivenciadas durante a infância? Em sua correspondência com o médico russo Schewitsch, Freud também destaca que não atribui grande importância às bases neurológicas da doença, no que se aproxima das opiniões de Fleissmain, que elenca a paranóia como uma perversão do indivíduo que, a partir de suas pretensões conscientes, apodera-se de seu inconsciente.

O psicanalista Quinet afirma que a paranóia instala na mente do seu portador a “certeza delirante”. Esta transformação do imaginado/sublimado em um real inconteste leva o paranóico a confundir-se com o ideal que representa. Isto explica porque os paranóicos buscam posições de poder, assumindo posturas auto-messiânicas.

Em suma: o caso desse menino já era grave na infância. Temo que agora, depois de adulto, a gravidade de seu quadro traga más consequências não somente para ele, mas para aqueles que estiverem expostos às suas ações.

Categorias