Publicado por: julius sodenberg | 18/01/2010

A mídia brasileira é um cardume de serrasalminae?

O prezado leitor Gaio Grimald encaminha uma questão difícil:

Gostaria de propor algo que até agora é misterioso para mim:
– Levando em consideração que a mídia de massa tradicional brasileira age como Bando, reagindo à excitação instintivamente e agindo em ataque e defesa coordenadamente, comparáveis a um cardume de serrasalminae;
Analise por favor, como um grupo antes tão diversificado, fomentador de mentes criativas e humanas, regrediu a ordem natural darwiniana para estes cabeças-de-peixe atuais em vias de extinção.
Outro grupo que aparenta alguns parcos indícios do mesmo mal é o de Exmos do STJ brasileiro..

Segue minha resposta:

Creio que esse processo seja melhor explicado pela psicologia social ou pela sociologia. A análise psicanalítica apenas apresentaria explicações pontuais e limitadas a alguns indivíduos. Assim, prefiro não me arriscar nesses dois campos nos quais não sou especialista.

Mas não posso deixar de comentar sua menção à “regressão  darwiniana” mencionada pelo estimado leitor.  A palavra regressão é perigosa, porque o senso comum a associa à um retrocesso, à volta a uma situação inferior. A teoria da evolução não comporta essa idéia de inferioridade entre os seres. Ela baseia-se na capacidade de adaptação ao ambiente como atributo fundamental para a sobrevivência.  Assim, talvez se possa utilizar a idéia de adaptação e sobrevivência para explicar o comportamento dos jornalistas. Um pequeno exemplo pode nos ajudar:
Tomemos dois  jornalistas hipotéticos como exemplo. Ao Jornalista A repugna-lhe fazer um jornalismo medíocre, mal-intencionado e subserviente. Incomoda-lhe profundamente funcionar como boneco de ventríloquo de seus patrões e interesses econômicos associados. Deprime-lhe ter que fazer auto-censura para não ser demitido por um telefonema do governador de S. Paulo a seu patrão. O Jornalista Z (ou M, ou MP, ou RN, ou ML, ou AJ, ou WW, ou AG, ou RA, ou DM, ou LH, ou LCS, ou EC, ou outra combinação de letrinhas que se encontre), no entanto, não sente os mesmos engulhos ao receber ordens de manipular informações e opiniões. Chega mesmo a sentir-se bem com isto. Interessado em subir mais alto nas oportunidades da carreira, agarra qualquer possibilidade, até a de ser biógrafo laudatório do patrão. Desenvolvendo sua subserviência, chega a antecipar-se às vontades do patrão e seus parceiros econômico-políticos e ser mais realista que o rei.
Coloquemos esses dois tipos de jornalista em um contexto em que as empresas jornalísticas tornam-se (a) cada vez mais venais; (b) cada vez mais preocupadas em defender os interesses econômicos dos grupos a que pertencem; (c) cada vez mais preocupadas em agir como um partido político reacinário; (d) as três hipóteses anteriores combinadas. Veremos que os Jornalistas do tipo A terão menos oportunidades de sobreviver nesse ambiente. Provavelmente muitos migrarão para outros espaços, menos contaminados, como a internet. Entretanto, o outro tipo, o tipo Z, será capaz de sobreviver e aqueles que apresentarem mais fortemente as características que atendam aos interesses dos donos da mídia tenderão a ter mais destaque em suas carreiras, e mais espaço nos meios de comunicação. Com o tempo, teremos a virtual extinção do tipo A nas redações ou, pelo menos, nas posições de destaque do jornalismo vinculado aos grandes interesses político-econômicos.

Logicamente, o enquadramento dos indivíduos nas categorias acima apresentadas depende de diversos fatores, certamente muitos deles podendo ser explicados em bases psicanalíticas (veja-se, por exemplo, o triste  caso de Boris C, aqui já discutido). Mas, repito, do ponto de vista psicanalítico, cada caso precisa ser tratado individualmente.

Quanto ao STJ, talvez seja suficiente clicar aqui para entender.


Respostas

  1. Olá passei aqui de novo para avisar que o blog de psicologia antigo saiu do ar devido aos muitos acessos simultaneos, então, estou aqui para te avisar do novo blog:
    http://psicologiaparatodos.orgfree.com/blogpsicologia

    Não esqueça de visitar! Pode esquecer o outro endereço!

    abraços!

    Gabriel

  2. que belo post! Mto legal seu blog,

    se você quiser posso colocar um post seu em meu blog com seu nome e link do teu blog!

    Mais uma vez parabens pelo blog de altissimo nivel!

    dá uma passada lá no meu!
    http://psicologiaparatodos.16mb.com

    abraços!

  3. Caro Dr. Julius,
    Precisamos te-lo de volta para nos esclarecer quanto aos aspectos psicológicos, psicanalísticos e psicosociais de nossa vida política.
    Volte, please!
    Agora mesmo estamos carentes de uma explicação relativa a psiquê do fato de uns se considerarem mais cheirosos que outros, como desígnio de valor, ou seja, estes uns alegam que a massa cheira mal enquanto que a gente fina exala finos odores dos mais afamados perfumistas, e que isso, por si só, faz toda diferença, como fossem o trigo separado do joio.
    Qual a explicação para esse comportamento Doutor?

  4. Caro Doutor,

    Por que não escreve mais?

    Um abraço : )

  5. Caro Doutor,
    Por que não escreve mais?
    Um abraço : )

  6. Professor gostaria de sua analise a luz psicanalise, por que as massas do PSDB são mais cheirosas do que do PT..

  7. Comentário retirado por ser inconveniente, dirigir ofensar a alguns jornalistas e não conter nenhuma gota de inteligência.
    Este blog não admite esse tipo de comentário.

    Origem:
    fredcrau@hotmail.com
    IP: 187.4.219.93

  8. prezado doutor sodenberg, eu gostaria de pedir uma análise sua voltada para a questão do forte preconceito que o presidente da república, um homem de origem humilde, sofre por parte de certa classe média…a meu ver nem mesmo a alta elite do país odeia tanto o presidente como parcelas da classe média… o que explicaria isso? seriam tambem medos, frustrações e pulsões reprimidas como no caso do citado “boris c.”?
    mais uma pergunta: sentimentos de inferioridade e medo SEMPRE levam a preconceitos?
    obrigado por suas análises e pelo seu excelente blog…
    er/

    • De fato, creio que preconceitos e discriminações em boa parte fundam-se nas mesmas bases do caso do citado Boris C. Mas nem sempre a relação de causalidade é a mesma. Como disse nesse estudo citado, é preciso diferenciar os processos individuais, aos quais os métodos psicanalíticos se prestam mais a dar explicações, e os processos sociais mais amplos, estes melhor explicados pela psicologia social e a sociologia (que não são minhas especialidades, espero que compreenda).

      Não é possível afirmar que sentimentos de inferioridade e medo necessariamente levem a preconceitos, pelo menos aqueles mais explícitos. Podem desdobrar-se de outras maneiras: podem mesmo levar à egolatria, como no caso de um antigo sociólogo que analisei em http://drjulius.wordpress.com/2009/11/15/a-presuncao-egolatra-de-um-sociologo/

      Em suma, o desdobramentos dos sentimentos de inferioridade e medo são múltiplos e dependem muito de outros aspectos da vida do paciente.

  9. Meus palpites:

    M: ??
    MP: Merval Pereira
    RN: Ricardo Noblat
    ML: Miriam Leitão
    AJ: Arnaldo Jabor
    WW: Wiliam Waack
    AG: Ancelmo Gois
    RA: Reinaldo Azevedo
    DM: ??
    LH: ??
    LCS: ??

    • Uma pista: M não se refere a uma pessoa em particular, é um qualificativo genérico para um tipo de jornalista.

  10. Extremamente esclarecedor! Eu aprendo muito neste site!

  11. Olá Sr. Julius Sodenberg,
    Acredito que esse processo não possa ser explicado nem pela psicologia social ou pela sociologia, mas sim pela psicologia evolutiva. Colaborar não é natural do ’CER HUMANO” esse bicho que todos acreditam ser bonzinho, um coitado altruísta, mas na realidade é um “Macaco Interesseiro” mesmo. Não sou psicólogo nem sociólogo ( sou físico e gestor empresarial), trabalho em industria, mas sou um apaixonado em análise de comportamento humano e gestão de pessoas, pois isso me auxilia muito na formação das equipes de trabalho. Como a colaboração não é espontânea temos que criar sistemas que enquadrem os indivíduos e os obriguem a fazer o que deve ser feito, senão não sai nada. Somente fazem por interesse mesmo, com raríssimas exceções. Gosto muito dos autores Matt Ridley, Daniel Kahneman, Robert Wright, Robert Axelrod e outros que por sinal os sociologos e psicólogos pouco ou nem conhecem, pois são muitos melhores que Freud ou Jung, que inclusive não são os mais adequados para o mundo da gestão.
    Um abraço. Edson Vergilio. Email: eavergilio@ig.com.br

    • Prezado Edson,
      Obrigado pelo comentário.
      Concordo com sua observação que nem sempre é simples aplicar Freud e Jung ao “mundo da gestão”, ou das organizações/grupos sociais. Inclusive porque não orientaram seus trabalhos para o estudo de organizações nem de processos cooperativos, focando-se no indivíduo.
      Vários estudiosos da evolução humana e/ou primata relativizariam seu juízo de que o ser humano é interesseiro/egoísta. Na verdade, relativizariam também a afirmação de que o ser humano é bom. Segundo essa corrente (veja, por exemplo, a obra de Frans de Waal) cooperação e conflito são partes inerentes das sociedades humanas, e a evolução dotou os humanos de mecanismos para as duas coisas. Creio que a partir daí seja possível entender melhor autores como Axelrod, que você cita. Essa corrente de estudos está preocupada em estabelecer como os mecanismos de cooperação/competição/conflito operam nas sociedades, organizações e grupos sociais.
      Creio que a psicanálise possa contribuir em um nível mais profundo de explicação: a complexidade da vida psíquica dos humanos opera sobre um substrato biológico que deve ser explicado pelas leis da evolução, mas essa vida psíquica e seus processos emerge como um fator que permite comportamentos -tanto altruístas como egoístas (“proximate bases”)- que em seu resultado final determinaram a evolução da espécie (“ultimate bases”).
      Ou seja, a análise psicanalítica, ao explicar o sujeito, ajuda a entender como os comportamentos sociais são produzidos em escala individual, mas não procura explicar os processos sociais e tampouco a evolução da espécie.
      Um abraço.

  12. ♫ Exceto no caso do Boris C., que nunca evoluiu e, portanto, não pode degenerar… ☺☺☺

  13. ♫ Vamos simplificar as coisas; utilizemos a expressão “degenerescência antidarwiniana” que fica tudo mais claro… ☺☺☺

  14. Prezado Dr. Julius,

    O senhor deveria fazer um post sobre cada uma dessas combinações de letrinhas. Fiquei curioso de saber quem são. Alguns eu advinhei…


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