O leitor Luis Santos pediu que comentasse as frases preconceituosas de Boris C. sobre os garis, pronunciadas na TV Bandeirantes no dia 31/12/2009 (clique aqui para assistir). Fiz uma longa pesquisa, que envolveu um retrospecto de sua carreira, a leitura de reportagens antigas e até entrevistas com motoristas de táxi de SP e Brasília.
O caso de Boris C. tem como chave de compreensão o preconceito e a agressividade. Pesquisando a vida desse personagem observa-se que esses dois comportamentos já se manifestavam em sua juventude, seguramente como reflexos de processos anteriores que construíram uma mente fragilizada e sujeita à sublimação constante de seus desejos. Veja-se a reportagem de 1968 revela sua filiação a organizações criminosas na juventude (1), em um tipo de gangsterismo pseudo-politizado e com forte componente de tentativa de afirmação da masculinidade. Para mim, está evidente que o recurso à violência é uma forma de construir uma imagem que oculte os verdadeiros desejos mantidos prisioneiros pelo superego.
Para entender melhor, é preciso pensar nas raízes do preconceito e da agressividade. Vamos entender como cada um desses se manifesta no caso em questão.
O preconceito e a resposta à frustração
A psicanálise não tem uma explicação única para o preconceito. É preciso saber que tipo de preconceito é apresentado pela pessoa analisada, para daí identificar os processos que levaram à construção do preconceito.
O preconceito pode surgir como imitação do comportamento de familiares, especialmente na tentativa de imitar a figura paterna para aproximar-se da mãe. Também pode surgir como resultado de processos mais complexos, normalmente baseados em alguma experiência de frustração ou sofrimento extremo. No caso em estudo, não foi possível obter informações sobre a forma como seus pais e outros familiares se referiam aos garis (ou “lixeiros” como se dizia antigamente e ainda se usa hoje de maneira preconceituosa e depreciativa). Pode ser que o menino Boris, em sua infância nos anos 1940-1950, ouvisse referências negativas aos profissionais da limpeza pública. Mas isso, aconteceu com milhões de outras pessoas, e sozinho não é um fato que justifique o tipo de comentário que gerou a recente execração pública do indivíduo aqui estudado. Assim, é recomendável procurar outros processos que, pelo menos, complementem a explicação.
O preconceito pode se originar do medo. É comum, por exemplo, que o preconceito contra imigrantes acirre-se em momentos de crise econômica, quando as pessoas têm medo de perder seus empregos. Medos atávicos são retomados, muitas vezes recorrendo a estereótipos que correspondem a figuras arquetípicas. Talvez o medo de Boris C. surja ao compreender que sua decadência como jornalista é inexorável, e que simboliza, de certa forma, a decadência de um tipo de jornalismo e de sociedade e dominação a que ele tem servido por décadas. Em reação, Boris C. mira aqueles que para ele representam melhor seu grande e odiado inimigo, o presidente Lula: os trabalhadores manuais menos qualificados.
Em um belo texto que se refere coincidentemente ao preconceito contra os ancestrais de Boris C., os judeus, Mauricio Waldman mostra como o preconceito está ligado às pulsões e aos sentimentos reprimidos (2):
Neste âmago, convivem todos os sentimentos reprimidos, formando uma reserva pulsante do irracional (…) tais pulsões se atiram decididamente na tarefa de conspurcar, violentar e profanar, macular o belo, o gentil, o virtuoso, o piedoso e o maravilhoso. Em especial, elas encontram o seu alvo nas formas que foram eliminadas do espaço, desqualificadas pelo tempo, atiradas para fora da História e da Geografia.Se formos olhar para os “lixeiros” de Boris C., eles são exatamente aqueles que estão fora da História, ignorados pela cidade enquanto trabalhadores invisibilizados pelo preconceito; e também expulsos da Geografia, moradores das áreas periféricas, dos cortiços e das favelas, expulsos da cidade da elite Esse medo não pode ser buscado apenas em sentimentos objetivos. Não sem motivo, Waldman nos fala sobre a reserva pulsante do irracional. E o que está instalado nesse irracional? Que pulsões serão essas? A psicanálise nos ensina que “existem essencialmente duas classes diferentes de pulsões: as pulsões sexuais, percebidos no mais amplo sentido – (Eros) e pulsões agressivas, cuja finalidade é a destruição” (3). A Pulsão de Morte, central entre as pulsões agressivas, muitas vezes tem sua gênese ligada às pulsões sexuais. Assim, devemos buscar as origens das pulsões na repressão sexual.
Lendo-se atentamente a reportagem sobre ele e seus amigos de juventude, acima citada, é fácil identificar, apesar da reserva com a qual o repórter trata o tema, que se trata de um ambiente de extrema repressão de pulsões sexuais. O que é a choperia onde se reuniam, senão o espaço de sublimação das pulsões recalcadas por meio da construção de uma camaradagem de rapazes que tentam provar sua masculinidade uns aos outros? E a presença da violência como código e valor básico de conduta do grupo de criminosos com o qual Boris C. convivia, segundo o repórter? Novamente, é preciso recorrer às pulsões reprimidas para entender como aqueles rapazes associam-se, na verdade, não para caçar comunistas, mas para caçar os fantasmas das fantasias sexuais que recalcavam dentro de si.
A agressividade como expressão da negação do eu
E, assim, identificando a violência como peça central no mecanismo de recalque de fantasias associadas a pulsões de ordem sexual, chegamos à agressividade.
Freud aborda a agressividade já ao tratar das experiências analíticas de Dora (1905) e de Hans (1909). A partir do estudo desses casos, Freud associou agressividade ao sintoma, responsabilizando-a pela sua produção e reprodução (3). A agressividade muitas vezes é manifestação e válvula de escape do medo, da frustração ou do recalque.
Ao assumir a agressividade como modus operandi da sublimação, o indivíduo muitas vezes toma o caminho da construção do fetiche. Busca, assim, associar a prática da violência com objetos que, de alguma maneira, ofereçam-lhe a segurança que seu eu fragilizado não é capaz de oferecer a si próprio. Não é sem motivo, portanto, que a reportagem de sua juventude menciona que Boris C. gostava de andar armado. Se hoje não tem mais esse hábito, muniu-se de outra arma, o microfone, um outro objeto fálico que evoca o mesmo poder masculino que uma pistola.
Ao desviar a garantia de sua segurança emocional para um objeto que evoque esse poder, o indivíduo normalmente projeta para o exterior um eu que não sente como o seu, mas que vê-se obrigado a projetar. Ao agarrar-se à agressividade baseada em um instrumento e postura arquetipicamente masculinizante, pode fantasiar que é capaz de esconder dos outros o Eu doloroso e frágil com o qual convive, mas não consegue aceitar.
Nem sempre é possível, no entanto, manter isso. Não é sem motivo que seus colegas do tempo de militância na organização criminosa CCC – Comando de Caça aos Comunistas diziam que ele era “mole” com os comunistas. Esse tipo de desvio comportamental tem essa característica: por trás dessa agressividade normalmente esconde-se um grande covarde, que apenas consegue atacar os fracos, mas costuma abaixar-se para os mais fortes e poderosos.
Referências
(1) CCC ou o Comando do Terror. Reportagem de Pedro Medeiros. Revista O Cruzeiro, 9 de novembro de 1968.
(2) WALDMAN, M. Arquétipos, Fantasmas e Espelhos. GEOUSP – Espaço e Tempo, São Paulo, Nº 23, pp. 44 – 64, 2008.
(3) PAULON, W. Agressividade e psicanálise (2009). Disponível em: http://www.webartigos.com/articles/26980/1/agressividade-e-psicanlise/pagina1.html
[...] o assessor para assuntos de limpeza pública, Boris K., manteve-se calmo. Com a superioridade inata de um fariseu, desdenhou: Que merda! S. Pedro, um [...]
Por: Gov. Zezinho recebe carta de S. Pedro sobre as enchentes « TIA CARMELA E O ZEZINHO em 25/02/2010
às 01:08
voce acha que o preconceito do borys tem a vem com a sua pederastia latente, ou ele não se aceita como homosexual que é e procura em outras categorias expressarn a raiva por ter nascido assim ?m acho que se ele se assumisse como pederasta passivo ficaria mais em paz consigo mesmo e não seria tão preconceituoso.
Por: contestador em 19/02/2010
às 17:08
♫ Pederastia latente!? Onde você viu essa latência, Contestador? E o Zé Bueiro? Você o considera uma careca latente? ☺☺☺
Por: Jimmy Cricket™ - Guarujá em 25/02/2010
às 03:36
Acho que a Band está incorrendo num grande equívoco na permanencia de Boris como âncora do jornalismo. Será que a direção de jornalismo coaduna com suas ideias?
Por: Gilson Santiago da Silva em 19/02/2010
às 15:12
♫ O que você acha, Gilson? Que o Fernando Mitre é flor que se cheire? ☺☺☺
Por: Jimmy Cricket™ - Guarujá em 25/02/2010
às 03:37
Como sociólogo e professor da disciplina no Ensino Médio público de SP gosataria de saber se existe alguma publicação onde eu possa fazer um “gancho” entre Psicanálise e Sociedade de Consumo ou Mídia contemporânea e Poder Econômico. Não “jogo no time do FHC” Rsrsrs.
Abração, José Roberto, Piracicaba SP.
Por: JOSÉ ROBERTO em 16/01/2010
às 13:07
Prezado José Roberto,
Para começar, sugiro que você veja algumas coisas da Maria Rita Kehl. São fáceis de encontrar, bastante acessíveis e vinculadas à nossa realidade brasileira.
Existe muita coisa sobre a classe média, o que pode ser interessante para entender como os próprios jornalistas formam suas opiniões e visões de mundo e influenciam as dos outros. Lembro, por exemplo, de um artigo chamado Auto-Retratos da Classe Média: Hierarquias de “Cultura” e Consumo em São Paulo, de Maureen O’Dougherty, que vai nessa linha.
De um outro ponto de vista, inclusive mais crítico à psicanálise, existe o livro do Erich Fromm, de 1955, A Psicanálise na Sociedade Contemporânea. Apesar de mais de 50 anos, ele coloca alguns temas ainda atuais e pode ser útil à sua reflexão. Também é fácil de encontrar.
Mas recomendo que você vá com calma. Para nem tudo a psicanálise dará a melhor resposta. Vale o aviso da própria M.R. Kehl: “A psicanálise substitui as ciências sociais como fantasia de panacéia universal na medida em que o homem social, político, vai sendo substituído pelo homem psicológico. É claro que os sujeitos das culturas do narcisismo são tão sociais quanto quaisquer outros, mas têm que se acreditar livres e soberanos para tudo desejar e tudo consumir.”
E mande para mim os resultados do que você desenvolver com seus alunos. Fiquei bastante interessado em conhecer.
Por: julius sodenberg em 13/02/2010
às 23:45
Lembre-se, Boris Casoy teve pólio na infância – o q deixou sequelas – e anda mancando até hj. Deve ter sofrido duplo preconceito: ser judeu e aleijado.
Por: Juca em 15/01/2010
às 02:29
Este aspecto que você levanta faz muito sentido, também. Por isso que eu falava da multicausalidade dos processos que levam ao estabelecimento do preconceito. Não é simples identificar o nível de contribuição de cada um deles às atitudes preconceituosas dos indivíduos. É bem difícil fazer essa mensuração. Na verdade, todo o comportamento do indivíduo em questão requer uma análise de vários fatores conjugados.
Por: julius sodenberg em 15/01/2010
às 04:35
♫ Judeu, aleijado e perobo… ☺☺☺
Por: Jimmy Cricket™ - Guarujá em 23/01/2010
às 04:08
verdade.. por incrivel que pareca é a mesma analise destinada a um SkinHead..
Por: gaio grimald em 13/01/2010
às 15:16
Dr Julius,
tenho acompanhado seu blog e acho suas análises excelentes.
Devo dizer que desta vez o sr. se superou. Este artigo é extremamente esclarecedor.
Parabéns!
Por: jefferson em 12/01/2010
às 03:32