Publicado por: julius sodenberg | 15/12/2009

Por que colocar dinheiro em roupas íntimas?

Recebi do leitor Jackson Filgueiras a seguinte consulta:

Dr. Julius;
Eu gostaria de solicitar do Senhor uma análise sobre um fenômeno um pouco mais escatológico, talvez: os dólares na(s) cueca(s).
O fenômeno de que foi protagonista o assessor parlamentar do PT foi o mesmo fenômeno protagonizado pelo quadro do Dem do Distrito Federal?
(…)
O que move uma pessoa a tais atitudes?
E seria a mesma loucura (permita descrever como loucura) praticada pelas “mulas” que engolem cápsulas de cocaína?

Prezado Jackson,

Sua pergunta é complexa e requer sérias reflexões. No espaço deste post, posso dizer-lhe que os dois comportamentos, apesar de terem a cueca e o dinheiro em comum, são distintos.

Primeiramente, quanto à comparação com as “mulas” do tráfico de drogas, creio que não procede. Ao que consta, ninguém até agora engoliu dinheiro, ainda que não pode descartar a hipótese de que, caso o faça, será um tipo de antropofagia arquetípica: ao engolir o dinheiro, o indivíduo incorpora para si a força dos meios de pagamento, fator central de sucesso em nossa sociedade. Diferentemente das “mulas”, que apenas estão usando de um artifício para transportar sua mercadoria.

No caso do dinheiro na cueca flagrado no aeroporto, a origem do dinheiro não foi esclarecida, pode ser que  houvesse algum financiamento não declarado para campanhas, mas pode ser alguma outra coisa.  Portanto, não é possível identificar claramente uma interpretação psicanalítica das origens de tal comportamento. Ainda assim, a dúvida persiste: legal ou não, por que carregar o dinheiro na cueca?
Sua hipótese de medo parece interessante. Talvez, para um cidadão que vá pouco até uma grande metrópole como São Paulo, dá medo ir a essa cidade tão cheia de perigos, assaltos, sequestros, ataques a delegacias, fugas de presos, detentos comandando crimes de dentro das prisões, crescimento do número de homicídios, corrupção e incompetência policial. Uma cidade com segurança pública precária, enfim, desperta medos ancestrais. E medos há muitos. Para alguns, talvez pareça um medo exagerado, mas um olhar realista dirá: São Paulo é uma cidade absolutamente insegura e não há grandes movimentos por parte das autoridades para mudar esse quadro (exceto a manipulação das estatísticas).

No caso de Brasília, a origem é sabida e é claramente devida a práticas de corrupção sistemática, com o chamado Mensalão Demotucano do DF. Podemos dizer que essa prática sistemática de corrupção evidencia  um comportamento obsessivo que pode estar associado a um TOC – Transtorno Obsessivo Compulsivo fundamentado na busca de afirmação da superioridade em relação ao Pai provedor. É como se Arruda e seus amigos dissessem: sou melhor que meu pai para prover recursos, porque trago muito dinheiro para casa. Estão matando o Pai para terem a Mãe somente para si. De certa maneira, a cueca é sua cartucheira onde colocam a munição: cada célula recebida se tornará um  tiro desferido no Pai Arquetípico.

Com relação à colocação do dinheiro na cueca, o caso brasiliense dispensa psicanálise e apela para o bom senso: quando se carrega grandes quantias em lugares tão infestados de ladrões como no governo do DF, todo cuidado é pouco.

Publicado por: julius sodenberg | 15/11/2009

A Presunção Ególatra de um Sociólogo

Hoje respondo pergunta da leitora Agda Diniz:

Dr Julius, O caso do Prìncipe dos Sociologos de Higienópolis também parece ser de “fase anal incompleta”? O que o Sr. acha?

A Fase Anal Incompleta pode manifestar-se de muitas maneiras. No estudo do caso do cantor Caetano Veloso, apontei três sintomas principais: egolatria, verborragia e esfincer solto.  Estes são os principais sintomas, mas não são relacionados unicamente à Fase Anal Incompleta. Podem surgir em outros contextos.

No caso do citado Sociólogo, não vejo elementos que caracterizem a Fase Anal Incompleta. Não existe o problema do esfincter solto, tampouco verborragia.  Observe a leitora que não se pode confundir verborragia com falar asneiras. Entre intelectuais que já tiveram um certo prestígio no meio acadêmico mas depois tiveram suas obras esquecidas, é comum a ocorrência de altas taxas de incidência de fala desconexa, sem que se caracterize a verborragia. Alguém pode apresentar fala desconexa e ser lacônico. Na verdade, esse sociólogo não é verborrágico, visto que a verborragia implica perder o controle da decisão de falar: o paciente fala mesmo que saiba que não deve, ou seja, há um déficit de controle da expressão verbal. E o sociólogo em questão costuma escolher bem os momentos em que deve se pronunciar.

No entanto, encontrei outros aspectos que merecem reflexão. A egolatria  é um comportamento evidente, e irei deter-me nela, neste post, mas prometo voltar ao caso desse sociólogo no futuro.

Ainda que a egolatria esteja presente nas manifestações da Fase Anal Incompleta, ocorre também em outros processos, como Freud já apontava. A egolatria está diretamente relacionada ao processo de construção da auto-estima na infância. Segundo Milagros Oliva, “a linha que separa a auto-estima da egolatria se origina nas primeiras relações que a criança tem com seu entorno”.

A construção da auto-estima está diretamente relacionada à relação da criança com seus pais.  Ao longo do processo edipiano, o menino divide-se entre a necessidade de aprovação do pai e a vontade de matá-lo para ficar com a mãe, objeto de seu desejo, só para si.  Pode-se olhar esta tensão como uma contradição, mas preferimos pensá-la como uma oportunidade de construção de um equilíbrio, até que se resolva a angústia edipiana. No entanto, nem sempre esse equilíbrio efetivamente se instaura.  Muitas vezes o menino resolve a tensão pela via da compreensão de que é absolutamente incapaz de ter a mãe para si, e dedica-se à reverência ao pai e a busca de formas de agradá-lo.   Assume comportamentos desejados pelos pais que, em troca, estimulam-no a prosseguir com tal postura, em um círculo de reforço mútuo.   A criança, vendo-se aprovada, desenvolve uma consciência de si na qual passa a sentir que está próxima da perfeição: ou seja, uma hipertrofia da auto-estima, que está no centro da egolatria.

Após a infância, se no âmbito do Ego  manifesta-se essa egolatria, seu Inconsciente lembra-lhe que, na verdade, é um derrotado que teve que render-se ao pai e depende de sua aprovação.  Tornou-se um derrotado que parece triunfante, mas seu triunfo vem da aprovação do pai, verdadeiro vencedor. E essa aprovação só existe porque foi derrotado. O Inconsciente avisa-lhe que, na verdade, sua elevada auto-estima é demasiado frágil.

Como ele resolve esse conflito? A contradição, uma vez insinuada pelo Inconsciente, origina uma reação de  reafirmação da sua superioridade, desenvolvida na relação com os pais, ainda que seja ilusória.  Aí surge um comportamento novo: a presunção.

Corkille faz uma importante distinção: “Auto-estima é o que cada pessoa sente por si mesma. Seu julgamento geral sobre si mesma, na medida em que sua própria pessoa lhe agrada. Auto-estima elevada não consiste em uma presunção ruidosa. É, sobretudo, um respeito silencioso por si mesmo, a sensação do próprio valor. A presunção, em troca, não passa de uma capa delgada que cobre a falta de auto-estima. Aquele cuja auto-estima é elevada não perde tempo em impressionar os demais: sabe que tem valor” (1).

Damos o nome de Presunção Ególatra a esse tipo de presunção combinada com egolatria. Trata-se de um comportamento engendrado pela contradição entre uma egolatria fortemente inscrustrada no Ego e uma compreensão de si como um perdedor que não pode declarar-se como tal.

________

(1) Corkille, D. El niño feliz. Ed. Gedisa

Publicado por: julius sodenberg | 07/11/2009

Caetano Veloso e a fase anal incompleta

O leitor Roberto Vinhas escreve-me pedindo que explique o comportamento do cantor Caetano Veloso. Esse leitor estava especialmente indignado com as declarações do cantor, chamando o presidente Lula de “analfabeto”, “cafona” e “grosseiro”.

Pesquisei um pouco a vida do cantor para poder responder. Para os mais jovens, que não conhecem bem o artista, ou já o conheceram em sua fase decadente, vale lembrar que ele se notabilizou pelo uso de frases de efeito que, a despeito de agredir pessoas ou grupos, chamavam para si a atenção da mídia, dando-lhe mais visibilidade.  Muitos de seus críticos destacam que não é incomum que o artista solte uma de suas declarações bombásticas antes de lançar um novo trabalho. Mas, pelo que pude pesquisar, não se trata somente de um gesto calculado (ainda que este provavelmente exista).  O comportamento de Caetano V.  tem origens mais complexas, vindas de seu Inconsciente.  Poderia dizer que ele vive o que costumo chamar de “Fase Anal Incompleta”.

Em psicanálise, a chamada fase anal é uma das fases do desenvolvimento infantil. Ocorrendo logo apos a fase oral, caracteriza-se pelo desenvolvimento do senso de ego e de poder, através do aumento da movimentação no ambiente. Ao contrário do que o senso comum pensa, a denominação dessa fase deve-se ao fato de que nesse momento a criança passa a ter progressivo controle dos esfíncteres anal e uretral. É o momento em que o bebê aos poucos abandona as fraldas.

A fase anal traz consigo uma série de mudanças para a vida da criança. O surgimento da capacidade de movimentação autônoma dá-lhe uma maior mobilidade, permitindo-lhe explorar o ambiente e apropriar-se de mais espaços e objetos. É a fase do “é meu!”. A criança procura segurar os objetos e nega-se a separar-se deles. Sente-se dona do mundo e capaz de qualquer coisa.

Outra mudança importante é a consolidação do desenvolvimento da fala. A criança passa a ser capaz de comunicar-se e rapidamente explora o poder da linguaguem. Dezenas de novas palavras e expressões são incorporadas a cada dia. Os pais maravilham-se com as descobertas, mas há um lado perverso: a criança aprende a usar as palavras para mentir, manipular e atrair para si a atenção.  Logo aprende também a usar a fala para atacar os que lhe contrariam.

Nos casos de fase anal incompleta, tal como estudados por Fleissmain, contemporâneo de Freud e um de seus correspondentes, o indivíduo permanece indefinidamente apresentando características da fase anal infantil na vida adulta, tais como:

  • Egolatria: no início da fase anal, normalmente esses pacientes recebem muitos reforços positivos da família, que acha suas frases bonitinhas e mesmo estimula a pronunciá-las; a criança torna-se um adulto convencido de que deve ser sempre o centro das atenções.
  • Verborragia: o paciente normalmente é capaz de falar ininterruptamente por várias horas, sem escolher assunto; não lhe importa se conhece ou não o objeto, emite opiniões certo de que são verdadeiras.
  • Descontrole parcial do esfincter:  tal como a criança, o indivíduo adulto nem sempre consegue controlar o esfincter, o que muitas vezes é chamado popularmente de “esfincter solto”.

Normalmente a fase anal incompleta ocorre em filhos únicos ou irmãos mais velhos, que concentraram as atenções da família nesse período do desenvolvimento infantil.

Existem vários relatos de tratamentos bem-sucedidos na literatura psicanalítica.  Eu mesmo tive alguns pacientes que, depois de terapias relativamente curtas, entre um e dois anos, exibiram melhorias muito significativas.Em alguns casos, é necessária a participação de pessoas que convivem com o paciente. O terapeuta deve convencer familiares e amigos de que devem ignorar os surtos de egolatria e as práticas verborrágicas do paciente pois, ao se iniciar uma discussão com ele, na verdade estamos alimentando sua egolatria, ou seja, estamos dando a atenção que busca doentiamente.É melhor deixá-lo falando sozinho ou sem resposta, por mais que pareça cruel e doloroso fazê-lo.

A despeito da possibilidade de tratamento, tanto a prática clínica quanto a literatura relatam que o sintoma do “esfíncter solto” é o mais difícil de ser tratado, tendendo a permanecer durante toda a vida.

Publicado por: julius sodenberg | 07/11/2009

A fantasia de um édipo sublimado

Volto aqui ao caso do menino chamado Zezinho, do bairro da Móoca, em São Paulo. Hoje, já adulto, ocupa um cargo político importante. No post anterior, falei dos sintomas  de paranóia relacional apresentados por ele desde a infância e que tornaram mais complexos em sua vida adulta.

Achei seu caso muito emblemático e pesquisei mais a respeito. Neste novo estudo, pude observar que ele apresenta um distúrbio o qual denomino “fantasia do édipo sublimado” ou “sublimação edipiana fantasiosa”. Também nos referimos a esse distúrbio pela sigla EFS, do inglês “Edipian Fantasious Sublimation”.

O portador de EFS apresenta sintomas de paranóia relacional e megalomania, mas a característica mais marcante é a recusa a aceitar contrariedades e a fixação em objetivos em geral irrealizáveis.

Essa fixação normalmente aparece como uma  obstinação em conquistar  espaços de poder. Ao buscar essas conquistas, o paciente procura sublimar o trauma edipiano básico, mostrando-se mais forte que o pai e oferecendo, simbolicamente, as conquistas à mãe.  Na fantasia do paciente, a conquista do poder significa a posse definitiva da mãe, e por isso deve ser realizada a qualquer custo: atingir o objetivo desejado é também proteger a mãe contra o pai expresso em todos os outros homens.

Ao contrário do que seria de se esperar pelo senso comum, os pacientes não apresentam atração por mulheres mais velhas. Sem embargo, a partir de um certo momento de sua maturidade apresentam interesse por mulheres maduras, mas bem mais jovens. Trata-se, na verdade, de buscar mulheres com a mesma idade que suas mães tinham no início de sua puberdade. A partir de certo ponto, essa busca, ancorada na fantasia do reencontro com a mãe arquetípica, pode ser a fonte de conflitos familiares.

A gênese desse distúrbio pode ser encontrada na trajetória do indivíduo até o início da pré-adolescência. Normalmente, quando a puberdade chega, o EFS já está totalmente instalado.  Constrói-se a partir da exposição desbalanceada ao convívio feminino, em detrimento do convívio com homens adultos da família, especialmente o pai.

Os homens nos quais o EFS manifesta-se normalmente tiveram não somente a mãe como referência mais forte na infância, mas outras mulheres o cercavam, como tias, avós, primas, e tinham acesso a pouca ou nenhuma companhia masculina familiar. Filhos únicos são mais propensos a desenvolver a fantasia do édipo sublimado.

Meninos cujo pai passa muito tempo fora de casa são especialmente propensos a desenvolver o EFS.  O Dr. Juan Stelmann(1), em estudo sobre o distúrbio, apontou o aumento da incidência em casos em que esses pais são mais autoritários e determinam comportamentos estritos para os filhos. No caso em questão,  seu pai saía muito cedo e chegava tarde do trabalho, além de lhe negar o convívio em um ambiente masculino, impedindo-o de acompanhá-lo ao trabalho para que se concentrasse nos estudos.

O EFS é um distúrbio que se incrustra no Inconsciente do indivíduo e seu tratamento exige um longo trabalho de terapia. No caso em questão, seguramente seriam necessários muitos anos de terapia para, se não resolvê-lo, ao menos reduzir os sintomas, que tendem a se agravar sem tratamento.

(1) EFS: La fantasia del Édipo Sublimado y la genesis de la paranoia. Revista Argentina de Psicanalisis, vol. 4, n. 2, 1969.

Publicado por: julius sodenberg | 07/11/2009

O caso de paranóia relacional do menino Zezinho

Recebi mensagem pedindo que analisasse o caso do menino Zezinho, um garoto da Móoca que vinha desenvolvendo, desde a infância, vários comportamentos bastante importantes.  Hoje já adulto, transformado em famoso político e ocupando um alto cargo público, vários dos sintomas que ele apresentava na infância e que eram tomados como esquisitices hoje desenvolveram-se em profundidade e tomaram conta de seu ego expansivo.

Como médico psiquiatra, posso garantir que o menino Zezinho tem um quadro gravíssimo de paranóia relacional. Esse menino tem várias características apresentadas por Freud em sua correspondência com o dr. Fleshsig, sobre o caso do paciente Schreber: altíssima excitação que o leva à permanente atividade e insatisfação, megalomania, transferência das causas de suas falhas e defeitos a outras pessoas, objetos ou situações e desprezo pela opinião alheia.

Muito se discute sobre as origens desses comportamentos. Teriam base neurológica ou dever-se-iam à situações vivenciadas durante a infância? Em sua correspondência com o médico russo Schewitsch, Freud também destaca que não atribui grande importância às bases neurológicas da doença, no que se aproxima das opiniões de Fleissmain, que elenca a paranóia como uma perversão do indivíduo que, a partir de suas pretensões conscientes, apodera-se de seu inconsciente.

O psicanalista Quinet afirma que a paranóia instala na mente do seu portador a “certeza delirante”. Esta transformação do imaginado/sublimado em um real inconteste leva o paranóico a confundir-se com o ideal que representa. Isto explica porque os paranóicos buscam posições de poder, assumindo posturas auto-messiânicas.

Em suma: o caso desse menino já era grave na infância. Temo que agora, depois de adulto, a gravidade de seu quadro traga más consequências não somente para ele, mas para aqueles que estiverem expostos às suas ações.

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