Diversos leitores escreveram pedindo que analisasse o caso do articulista de um conhecido jornal, aqui referido pelas iniciais C. B. que, segundo pude me informar, há algumas semanas publicou texto no referido jornal (que, confesso, deixei de ler há muitos anos) em que mencionava uma confissão jocosa do presidente da república feita diretamente a ele, de que teria tentado abusar sexualmente de um rapaz, quando preso político.
Não conheço o sr. C.B. pessoalmente, mas busquei informações em múltiplas fontes e nos seus próprios textos. Estes textos são um celeiro de atos falhos, no sentido psicanalítico do termo. Sua leitura ajudou muito na análise apresentada a seguir.
Várias hipóteses foram aventadas pelos leitores. Vamos, primeiramente, explorá-las:
a) Síndrome de Asperger
A S. de Asperger é relacionada ao autismo, porém diferindo em vários sintomas. Segundo o psicólogo português Paulo Teixeira (não confundir com seu homônimo deputado federal por S. Paulo), as pessoas portadoras da S. de Asperger:
Apesar de poderem ter um extremo comando da linguagem e vocabulário elaborado, estão incapacitadas de o usar em contexto social e geralmente têm um tom monocórdico, com alguma nuance e inflexão na voz.
Esses pacientes são capazes de se comunicar, e com isso parece que podem vir a ter vida social aparentemente normal, até que o contexto entra em cena. Incapazes de compreender o contexto em que um processo comunicacional ocorre, rapidamente seus diálogos tendem a caminhos divergentes e o interlocutor tem a impressão que o paciente não seguiu o diálogo com ele, mas é como se dialogasse consigo mesmo. Normalmente, esses “diálogos de surdos” acabam por tomar o caminho do monólogo, com o paciente fixando-se obstinadamente em algum ponto da conversa e “falando em círculos solitários”, nos quais o significante e o significado se esboroam no diálogo e ganham sentido apenas para o paciente, como já definia Quinet(1).
No caso em questão, seguramente o uso elaborado da linguagem e o diálogo descontextualizado encontram-se presentes. Entretanto, outros sintomas que poderiam ser referidos à Síndrome de Asperger não foram constatados nas fontes que foi possível consultar.
O referido C.B. parece levar uma vida social relativamente normal, que torna difícil a catalogação imediata da síndrome entre seus comportamentos. Parece-me mais provável um problema de exercício intelectual, na ordem do exercício da capacidade analítica ou de compreensão de processos políticos do que, propriamente, um caso de Síndrome de Asperger.
b) Transtorno de Personalidade do Tipo Esquizóide
O leitor Celso R., em mensagem por e-mail, pergunta se o caso do articulista C.B. pode ser enquadrado como Transtorno de Personalidade do Tipo Esquizóide.
A presença de delírio é fundamental para o diagnóstico do TPTE, cujo surgimento está relacionado a uma ruptura do desenvolvimento do pensamento lógico-formal. Ou seja, uma atitude delirante frente à realidade encontra no paciente justificativas absolutamente normais. O paciente em delírio jamais o admite: o delírio substitui a realidade.
Alucinações, que podem ser encontradas desde idades mais precoces, são comuns e freqüentes e podem ser detectadas mesmo antes do aparecimento da comunicação verbal.
O Transtorno de Personalidade do Tipo Esquizóide leva o paciente a ter sensibilidade aumentada, com crescimento da ideação paranóide. Também se acompanha da presença de fantasias, às vêzes muito elaboradas (sintoma que ganha importância com a idade).
Alguns dos leitores que escreveram acusavam o articulista C.B. de “estar delirando” em seu texto. Por mais estranho que seja o artigo e mais inusitados tanto o conteúdo da acusação como a forma como o autor teria tido contato com ela, e por mais inverossímel que pareça toda a história, não é possível rotular o ocorrido como “delírio”.
Entretanto, a repetição contínua desse tipo de comportamento pode implicar a necessidade de monitoramento específico de sintomáticas antecipadoras do diagnóstico de TPTE.
c) Mal de Alzheimer
O mal de Alzheimer traz, entre suas características, a perda da memória recente e a emergência de recordações antigas. É como o cérebro começasse a revirar suas gavetas e viessem lembranças há muito esquecidas, ao custo de se esquecer o que se viu e ouviu há pouco tempo.
Na idade de C.B., na casa dos 50, o aparecimento de sintomas significantes de Mal de Alzheimer não é comum. Entretanto, a literatura aponta casos de Alzheimer precoce. Recentemente, foi relatado um caso paranaense em que o indivíduo, grande executivo de uma empresa pública de comunicação do estado, um belo dia, ao voltar do trabalho, dirigiu até o Rio de Janeiro, onde morava antes de ir trabalhar na empresa paranaense, tendo se esquecido de que morava e trabalhava agora em Curitiba.
No entanto, parece-me que esta não seja a condição de C.B. Para diagnosticar uma eventual presença do Mal de Alzheimer em regime de precocidade, seria necessário ocorrer um número maior de eventos, o que não foi possível identificar em nenhuma das fontes consultadas.
d) Recalque
Outro leitor pergunta “com relação ao cidadão C. B., ele poderia sofrer de recalque por não ser o garotinho ao qual o presidente se referiu?
Freud fala do recalque (Verdrängung) usando uma expressão muito feliz:
“O ego não pode escapar a si próprio” (Recalque, vol. XIV, 1915, p.169)
O recalque surge quando uma determinada força de afastamento do objeto desejado (ou da pulsão que atrai o indivíduo a ele) logra dominar o ego e apoderar-se da mesma pulsão. Como diz Freud:
“Torna-se condição para o recalque que a força motora do desprazer adquira mais vigor do que o prazer obtido da satisfação” (p.170)
Uma vez apoderando-se da força da pulsão, o recalque a redireciona para sentidos opostos ou diversos. E utiliza essa mesma força para impedir que o consciente identifique a origem do recalque.
Nesse sentido, o recalque afasta do consciente a ligação imediata com o objeto original da pulsão. O recalque é, mesmo, uma manobra para ocultar a pulsão e, portanto, precisa dessassociá-la de seus elementos imediatos. A hipótese apontada pelo leitor torna-se, portanto, impossível, por excessivamente direta. O recalque sempre requer maiores mediações. Fiquei, mesmo, suspeitando que o leitor apenas quis fazer uma provocação ao articulista C.B.
Minha conclusão: tentando trabalhar as hipóteses e revisitando um mito hebreu
Como pudemos ver acima, nenhuma das hipóteses levantadas pelos leitores se confirma, de pronto. Entretanto, alguns elementos do comportamento de C.B. podem ser evidências antecipatórias de sintomáticas em constituição. Somente o acompanhamento permanente por profissional especializado poderia confirmá-las, no futuro.
De qualquer maneira, pode-se verificar que a negativa da figura paterna encontra-se presente. Nitidamente,a figura de Lula é, para C.B., uma figura paterna. Seu afastamento do partido do presidente e todo o desenvolvimento posterior de sua atividade política e de seus escritos podem ser interpretados como essa negação do Pai, um pai tão sobrenaturalmente forte que não pode ser vencido.
Talvez seja útil valer-se de um mito bíblico para melhor entender a situação. Trata-se do caso de Noé e seu filho Cam.
Conta a Bíblia que, numa noite, embriagado, Noé teve sua nudez exibida por seu filho Cam. Essa atitude de Cam é absolutamente edipiana: ele tenta matar o pai (no caso, simbolicamente, ao destruir sua respeitabilidade aos olhos da tribo e aos olhos de Deus) para tomar o seu lugar.
Ao despertar da embriaguez, Noé apercebeu-se do ocorrido e amaldiçoou Cam e seu filho Canaã (que daria origem aos cananeus, inimigos dos hebreus). Estes, com a maldição, viriam a ser escravos dos demais filhos de Noé: Sem (que geraria os povos semitas, entre os quais os hebreus) e Jafé (de quem os gregos descenderiam).
O que faz Cam, depois da maldição? Aceita-a, impotente, mesmo que considere que a culpa é do pai, que cometeu o erro de ficar em estado de nudez e que ele apenas a mostrara. Mas seus descendentes, depois, farão muitas guerras contra os hebreus, sendo ao final derrotados e desaparecendo como povo.
O mito presta-se a muitas interpretações, inclusive incestuosas e homossexuais, como faz Saramago em seu livro Caim. Mas o mais importante que nos diz é que a revolta contra o pai injusto e opressor às vezes demora para aparecer, mas aparece (no caso do mito, gerações adiante). Essa revolta tem sempre caráter edipiano. Esse que se revolta contra a figura paterna a está desafiando. Quer tomar o seu lugar e usa todas as armas para isso. Talvez aí, de certa maneira, haja espaço para se pensar não em recalque, mas em fantasia: impotente na luta contra o Pai dominador, incapaz de tomar seu lugar e de conquistar para si a exclusividade do amor da mãe, o indivíduo fantasia situações que poderiam devolver-lhe a esperança de destruir o Pai. Muitas vezes sabe tratar-se de uma fantasia, mas não mais consegue desvencilhar-se dela.
Talvez seja isso que ocorre com o articulista C.B. Não tendo nunca resolvido suas relações com a figura paterna projetada em Lula, tenta destruí-la, revolta-se contra ela tentando exibir a nudez dessa figura, ou seja, mostrando-o como menos merecedor da reverência. Sua saída do PT é, de certa maneira, a repetição da maldição de Noé sobre Cam. Seus ataques posteriores a Lula talvez sejam as suas guerras cananéias, travadas quando a maldição já estava posta e destinadas à inevitável derrota dos cananeus.
(1) QUINET, A. Um olhar a mais: ver e ser visto na psicanálise. Rio de Janeiro, Ed. Jorge Zahar, 2002