Recebi do leitor Jackson Filgueiras a seguinte consulta:
Dr. Julius;
Eu gostaria de solicitar do Senhor uma análise sobre um fenômeno um pouco mais escatológico, talvez: os dólares na(s) cueca(s).
O fenômeno de que foi protagonista o assessor parlamentar do PT foi o mesmo fenômeno protagonizado pelo quadro do Dem do Distrito Federal?
(…)
O que move uma pessoa a tais atitudes?
E seria a mesma loucura (permita descrever como loucura) praticada pelas “mulas” que engolem cápsulas de cocaína?
Prezado Jackson,
Sua pergunta é complexa e requer sérias reflexões. No espaço deste post, posso dizer-lhe que os dois comportamentos, apesar de terem a cueca e o dinheiro em comum, são distintos.
Primeiramente, quanto à comparação com as “mulas” do tráfico de drogas, creio que não procede. Ao que consta, ninguém até agora engoliu dinheiro, ainda que não pode descartar a hipótese de que, caso o faça, será um tipo de antropofagia arquetípica: ao engolir o dinheiro, o indivíduo incorpora para si a força dos meios de pagamento, fator central de sucesso em nossa sociedade. Diferentemente das “mulas”, que apenas estão usando de um artifício para transportar sua mercadoria.
No caso do dinheiro na cueca flagrado no aeroporto, a origem do dinheiro não foi esclarecida, pode ser que houvesse algum financiamento não declarado para campanhas, mas pode ser alguma outra coisa. Portanto, não é possível identificar claramente uma interpretação psicanalítica das origens de tal comportamento. Ainda assim, a dúvida persiste: legal ou não, por que carregar o dinheiro na cueca?
Sua hipótese de medo parece interessante. Talvez, para um cidadão que vá pouco até uma grande metrópole como São Paulo, dá medo ir a essa cidade tão cheia de perigos, assaltos, sequestros, ataques a delegacias, fugas de presos, detentos comandando crimes de dentro das prisões, crescimento do número de homicídios, corrupção e incompetência policial. Uma cidade com segurança pública precária, enfim, desperta medos ancestrais. E medos há muitos. Para alguns, talvez pareça um medo exagerado, mas um olhar realista dirá: São Paulo é uma cidade absolutamente insegura e não há grandes movimentos por parte das autoridades para mudar esse quadro (exceto a manipulação das estatísticas).
No caso de Brasília, a origem é sabida e é claramente devida a práticas de corrupção sistemática, com o chamado Mensalão Demotucano do DF. Podemos dizer que essa prática sistemática de corrupção evidencia um comportamento obsessivo que pode estar associado a um TOC – Transtorno Obsessivo Compulsivo fundamentado na busca de afirmação da superioridade em relação ao Pai provedor. É como se Arruda e seus amigos dissessem: sou melhor que meu pai para prover recursos, porque trago muito dinheiro para casa. Estão matando o Pai para terem a Mãe somente para si. De certa maneira, a cueca é sua cartucheira onde colocam a munição: cada célula recebida se tornará um tiro desferido no Pai Arquetípico.
Com relação à colocação do dinheiro na cueca, o caso brasiliense dispensa psicanálise e apela para o bom senso: quando se carrega grandes quantias em lugares tão infestados de ladrões como no governo do DF, todo cuidado é pouco.